Professor
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TRANSCRIÇÃO
A minha trajetória é de professor. Hoje eu tenho Mal de Parkinson. Tenho 61 anos. Então, não, aposentadoria não. Eu ainda estou recebendo parte de auxílios sociais. Em 2017 eu cheguei em situação de rua que estou até hoje. Mas o maior medo é de você deitar e não acordar, sabe por quê? Pela violência. Por alguém que tem revolta.
Você não pode dizer que dia você recebeu o seu auxílio, o seu benefício. Tem morador de rua e tem situação de rua. São diferentes. Uns já não foram, como é meu caso, hoje eu sou. Nós tivemos uma reunião essa semana, moradores de rua versus empresários. Primeiro eles achavam que é mal, e acham. E aí eles querem limpar. Então, o que nós queremos é dignidade. Então não pode endemonizar morador de rua, porque eles são demônio. Agora recente, passou senhor de carro bem lento.
E o cara disse "eu vou atirar em vocês todos". E pela qualidade do carro, eram empresários. Não é todo mundo que está na rua que é da rua e é em situação. Tem outros filtros, outros vieses que nos atrapalham, principalmente a questão de quem quer vender drogas, quem passa droga. E esses têm casa. Então, o maior medo é alguém que saia fora de si e você dormir e não acordar. Ou alguém te trocar por outra pessoa, te identificar. Muitos dormem de cabeça embrulhada, outros não, outros mostram o rosto. E aí você não sabe que tipo de loucura pode vir, ou de revolta. Preto, negro, fala na linguagem mais cotidiana, todos os negros parecem com o outro, isso é preconceito.
E eu já vi, já dormi na Biblioteca Nacional de Brasília, e a pessoa desemburiou meu rosto, aí os dois estavam juntos, falaram assim, não, não é esse não. Ele estava à procura de alguém. Esses são os maiores medos, é a intranquilidade, você não dorme completamente, acorda por qualquer ruído, qualquer movimento. O banheiro do centro comercial é o melhor daqui do centro em termos de qualidade de higiene. É dois banheiros só para cada gênero. A demanda é muito grande e tem os horários de pico que é maior ainda. E sábado e domingo é problema que tem que ser resolvido. Quer dizer, sábado e domingo ninguém pode fazer necessidade fisiológica. E eu acho que não pode fechar porque atende toda a sociedade que está aqui. E agora a gente se vê nessa situação por falta também de contribuição. De parcerias.
E a nossa maior angústia é se fechar esse banheiro. Esse banheiro não existia, era muito pior do que está hoje em termos de saúde, de higienização.

E o cara disse "eu vou atirar em vocês todos".
E pela qualidade do carro, eram empresários.
