Um banheiro não deveria ser raro. O fato de que esse é o único espaço desse tipo na região não é um detalhe, é um diagnóstico. Diz algo sobre o que a cidade considera essencial, e para quem.
O que escolhemos deixar de ver
Por Pedro Matallo, diretor criativo
Brasília tem uma relação particular com o que não pode ser visto. Como uma cidade planejada à exaustão, existe para ser contemplada em escalas monumentais, favorecendo uma visão ampla do horizonte e muitas vezes esquecendo que as ruas foram, efetivamente, feitas para pessoas.
Nessa lógica, muita gente simplesmente não aparece nos planos e projetos da cidade. Não são citadas em projetos urbanísticos, nem lembradas em projetos sociais. Isso não é algo particular de Brasília, claro. Mas, diferente de outras cidades onde o urbano é construído em espasmos imobiliários, podemos afirmar que tudo que escolhemos deixar de ver em Brasília faz parte de um projeto.
Por exemplo: no Setor Comercial Sul, uma das regiões mais movimentadas do Distrito Federal, existe um único banheiro público. Parece pouco, mas é muito. Por vinte anos, o espaço ficou fechado. Foi reaberto durante a pandemia, quando a crise sanitária tornou impossível ignorar que havia centenas de pessoas sem acesso a água, a um espelho, a condições mínimas de higiene. Hoje atende mil pessoas por semana, entre moradores de rua, ambulantes, trabalhadores, transeuntes. Funciona com doações e, por isso, sua continuidade nunca está garantida.
Um banheiro não deveria ser raro. O fato de que esse é o único espaço desse tipo na região não é um detalhe, é um diagnóstico. Diz algo sobre o que a cidade considera essencial, e para quem.
Faces parte desse lugar. Não como cenário ou pretexto, mas como ponto de partida real: foi ali que a fotógrafa Ana Lima encontrou as onze pessoas que compõem a exposição. Homens e mulheres cis e trans que usam ou já usaram o banheiro do SCS, e que aceitaram ser fotografados e ouvidos. Os retratos são fechados, diretos: rostos em close, sem paisagem ao redor. As imagens não mostram um contexto social. Focam nos aspectos mais humanos. A pele, o olhar, as marcas da vida.
Os depoimentos em áudio que os acompanham fazem o que a imagem não consegue: deixam essas pessoas falarem por si mesmas, no próprio tempo, com as próprias palavras.
A exposição não explica essas histórias. Ela as apresenta. E ao fazer isso, traz uma pergunta simples e desconfortável: o que todos nós escolhemos deixar de ver?


Sobre o banheiro comunitário
Em 13 de maio de 2025, o banheiro comunitário do Setor Comercial Sul completou cinco anos, garantindo saneamento básico a quem passa pelo centro de Brasília. Após 20 anos fechado, foi reinaugurado durante a pandemia e, atualmente, atende mil pessoas por semana.
Em 2021, a experiência foi apresentada na Semana Mundial da Água de Estocolmo, como tecnologia social garantidora de saneamento a pessoas que não têm acesso ao direito, pois sequer entram nos censos realizados. Em 2023, o banheiro foi um dos projetos apresentados no 8º Festival Internacional de Intervenções Urbanas no Rio de Janeiro.
O diretor-geral do Instituto, Rafael Reis, destacou que “o espaço é um instrumento transformador e inovador, e mostra que a gente pode pensar em construções coletivas de longo prazo”.
Adotado por meio do programa “Adote uma Praça”, o equipamento funciona de maneira coletiva: a reforma foi realizada por duas empresárias do próprio SCS, água e luz são fornecidas pela Administração do Plano Piloto e a gestão é feita pelo No Setor com doações da sociedade civil.
O No Setor aceita doações em material de limpeza e em dinheiro. O grupo mantém uma página na plataforma Benfeitoria e recebe doações pontuais no pix@nosetor.com.br.

