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Laila

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TRANSCRIÇÃO

 


 Hoje, gente, meu nome é Laila, eu atualmente estou trabalhando aqui no Instituto No Setor.  Ainda ontem, eu saí no daqui do serviço, um rapaz me ofende pelo simples fato de a gente existir, de a gente estar no espaço que também é nosso, entendeu? Então eu reagi de uma forma que eu não reagi há décadas, entendeu?


Eu bati tanto nesse homem ontem que as câmeras lá devem ter pego e algumas pessoas gritaram e tal, algumas falaram arrasou, ele não tem que estar mexendo com pessoas que eles não conhecem.


 E se fosse em outra época, quando eu vivia em situação de rua, eu teria feito besteira, estaria presa, entendeu? Eu teria cortado ele todinho.


Foi assim um momento de ir aqui, eu me desconheci, mas faz gosto para eles isso, essa violência de estar apontando o dedo pelo fato de eu ser uma mulher trans trans trans trans e achar que a gente é motivo de chacota, de brincadeira, de isoação, porra, é foda, doeu ontem, doeu, entendeu? Me afetou porque ele falou com clareza, ele falou me olhando.


Cheguei em casa também, eu chorei tanto sozinha, chorei tanto.


Mas foi por esse motivo, entendeu? O dia ele me tratava pelo gênero masculino, sendo que eu já sou uma trans, bem resolvida da minha vida e isso não me incomode nada, não me afetou nada, eu sou completamente feliz e bem resolvida com meu gênero de vida. Tem mais de 10 anos que eu não faço mais os usos de nenhuma substância, graças a Deus, saí por vontade própria, conseguir. Eu sei que é muito difícil, que nem todas as pessoas conseguem, mas porque eu vi muitas meninas, muitas amigas minhas morrerem mesmo pelo uso, fazendo o uso e por violências mesmo na rua, entendeu? Quando eu fazia uso de crack, eu era outra pessoa, entendeu? Então eu me desconhecia, eu me desconheci durante anos para eu me ver hoje em dia e lembrar que meu passado foi tenso, entendeu? Eu só tenho a agradecer por todas essas violações que a sociedade me colocou e que eu deixei a sociedade fazer comigo? Hoje em dia eu não admito mais violência nenhuma na minha vida. Eu grito mesmo, eu reajo e vou reagir sempre.


 A minha família não tinha base, não tinha conhecimento para entender o que eu era, nem eu tinha conhecimento de o que eu me tornaria. Depois de 30 anos de idade, eu consegui fazer meu segundo grau, fazer cursos de profissionalizações e eu conquistei muito e continuo conquistando, correndo atrás.


 Então o que me dói muito ainda hoje em dia, diariamente, é o preconceito da sociedade. As pessoas que vivem a situação de rua respeitam mais a gente para vestir do que a sociedade em si.

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A minha família não tinha base, não tinha conhecimento para entender o que eu era, nem eu tinha conhecimento de o que eu me tornaria. Depois de 30 anos de idade, eu consegui fazer meu segundo grau, fazer cursos de profissionalizações e eu conquistei muito e continuo conquistando, correndo atrás.

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