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Paulo

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TRANSCRIÇÃO
 

Olá, sou Paulo, sou pernambucano. Cai em uma depressão forte, não conseguia ficar de casa e conheci a rua. Passei período de três anos na rua. Não foi tempo fácil, foi muito difícil. Mas a gente absorveu umas coisas boas dessa situação. Voltei a estudar, comecei a fazer alguns cursos. Eu sendo profissional da área de serralheria, de marcenaria, eu tinha muita facilidade de arrumar emprego, de arrumar serviço. E depois quando eu caí em situação de rua, eu não consegui mais. Por quê? Porque o pessoal tinha olhar diferente com a gente. Porque todos os moradores de rua ladrão, todos os moradores de rua viciados. Porque ninguém ia dar emprego a uma pessoa que não tem endereço. Que não tem uma referência. Eu fiz uma pesquisa quando eu estava fazendo o curso de redução de danos, procurei saber o porquê as pessoas estavam em situação de rua. 
 

A grande maioria vieram de outro estado atrás de uma melhoria de vida e não conseguiram. E acabaram conhecendo a rua. Quando você conhece a rua, você conhece o álcool, você conhece a droga. Pra você encontrar uma pessoa pra lhe chamar pro emprego, mercado de trabalho, você não acha não. Agora pra chamar você pra usar uma droga, pra fazer uma coisa errada, o que mais você acha? Muita gente faz consumo pra tentar preencher o vazio que tem dentro de si. Pra poder ser... Às vezes é pra esquecer preconceito, esquecer abandono da família. Às vezes você não tem o que comer. Por quê? Porque eu tinha muita vergonha de chegar e pedir uma comida e levar o não. Quando eu saí de casa, eu falei pra minha mãe que não me voltava nem de visita, já faz 11 anos que eu não volto lá. 
 

Minha mãe falou na minha cara que eu era a desgraça da vida dela, que era pra ter tomado remédio pra me abortar. E assim, eu gosto muito da mágoa, eu tenho isso dentro do meu coração, isso me maltrata muito. E acabou caindo depressão, vim pra rua. Ficava muito triste pela questão do preconceito da galera. Já vim de pessoas passarem e jogar copo de cerveja no rosto de pessoas que estavam deitadas. Aqui é onde era o antigo BRB. A gente estava deitado e passou que a gente chama de “playboy”. Chegou com copo de cerveja e jogou na pessoa. A pessoa estava deitada.

Mas assim, é aquela coisa. Se hoje eu tô trabalhando, se hoje eu tô no meu aluguel, é porque teve pessoas que acreditaram em mim e me deram oportunidade. E é isso que a rua precisa.  Gente que acredite nelas, que dê oportunidade e abra a porta. Que não olhe só pelo consumo, pelo uso que ela faz, pela situação que ela faz. A esperança é essa. A gente começar a conseguir mais serviços pra gente reencaminhar essas pessoas pro mercado de trabalho.
 

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Se hoje eu tô trabalhando, se hoje eu tô no meu aluguel, é porque teve pessoas que acreditaram em mim e me deram oportunidade. E é isso que a rua precisa.  

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