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Salu

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TRANSCRIÇÃO

Na minha experiência, foi a questão da alimentação, né? Você passa, às vezes, não tem necessidade, às vezes tem doação, às vezes não tem, entendeu? E a questão do abandono também, que vai gerando uma coisa na sua mente, que eu não era ninguém, entendeu? Querendo fazer a gente acreditar que porque a gente tá na situação de rua, a gente também vai ter que ser igual bandido, vai ter que perder aquilo que a mãe da gente passou pra gente, que é os princípios, entendeu? Dentre todas as passagens que eu tive na rua, eu fiquei mais de três, em volta de quatro anos, entendeu? Da última vez eu fiquei dois anos. Nessa situação, eu optei por fazer uma casinha na árvore. Pra mim tá fugindo dessas questões de roubar seu cobertor, roubar seu colchão. 
 

Depois fui morar perto do colégio, porque lá eu também estudava o Barba, né? Na época. E aí ele me apresentou o Felipe, lá no Hospital de Base. Como eu já tinha minha bicicletinha, celular, e conseguia andar mais ou menos assim, bem vestido, eles me convidaram pra trabalhar junto com eles no escritório. Era bem o começo mesmo do Instituto No Setor. E foi o que mudou a minha concepção de ver a sociedade, entendeu? Porque pra mim, antigamente, quando eu tava na rua, todo mundo era inimigo. Todo mundo, todo mundo era inimigo, tinha preconceito e quando eu fui saindo da rua, fui tendo essa experiência de poder me emancipar, de pagar meu aluguel, de comprar minha comida, eu fui vendo que cada uma dessas pessoas elas que tem muita condição financeira, a grande maioria, elas têm uma pobreza que a gente não tem, entendeu? Elas têm uma pobreza de amizade verdadeira, ter alegria nas mínimas coisas, num prato de comida, na liberdade, entendeu? Muitas dessas pessoas vivem presas nos seus condomínios, tomando remédio, whisky, se embriagando, usando droga mesmo, que a gente sabe. Enquanto a gente, que às vezes precisou estar na situação de rua, foi muito discriminado.

E aí eu comecei entregando documento, logo aprendi o processo todo de tirar licença de evento. E quando veio a pandemia, começou-se o projeto do banheiro. Que aí eu fui coordenado por um dos coordenadores e também na atividade de limpeza. Foi essa uma das chaves que virou na minha cabeça que fez eu estar aqui hoje. Se eu não tenho ninguém pra cuidar de mim, familiar ou até mesmo o estado, eu tenho que começar a cuidar de mim, entendeu? Depois que você toma banho e veste uma roupa nova, sua autoestima muda.

Eu terminei, consegui terminar meu ensino médio no Enseja, que foi uma grande vitória para mim. Hoje eu posso me financiar através desse trabalho, através dessa oportunidade. Então, o que eu tenho para trazer aqui no meu relato, é agradecimento por todas as pessoas do Instituto. Por causa que tá tirando a gente, né? Tá proporcionando pra gente sair de uma invisibilidade. É tanto, que saíram ali mais de quatro pessoas da situação de rua. E hoje consegue através dessa oportunidade, dar ressignificado para a sua história. Não precisa ter muito para dividir pouco. 
 

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"Eu fui vendo que cada uma dessas pessoas elas que tem muita condição financeira, a grande maioria, elas têm uma pobreza que a gente não tem, entendeu? Elas têm uma pobreza de amizade verdadeira, ter alegria nas mínimas coisas, num prato de comida, na liberdade, entendeu? Muitas dessas pessoas vivem presas nos seus condomínios, tomando remédio, whisky, se embriagando, usando droga."

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