Sil
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TRANSCRIÇÃO
Eu fazia programa, porque no mundo das trans, dos travestis, a opção que a gente tem pra estar sobrevivendo é o programa. Hoje para você estar fazendo programa já é mais fácil, porque você tem a internet, os meios de comunicação.
Eu vim de uma época que a gente tinha que estar fazendo na rua. E na rua a gente lidava com todo tipo de pessoa, todo tipo de cliente e muitas caem no lance do alcoolismo, uso de drogas, como aconteceu comigo. Pra poder encarar a noite, eu fazia uso de droga alcoólica e de drogas ilícitas, porque senão eu não conseguiria estar fazendo o meu trabalho. Olha, minha família… o meu pai nunca foi assim muito… legal em relação ao aumento da minha sensualidade. A minha mãe já foi uma pessoa mais maleável.
A minha mãe em casa, era uma mulher que liderava toda a família. A última opinião vinha dela, então eu tive sorte de ir lá. Uma verdadeira comandante. Pra minha transição, eu tinha que sair de casa. Por quê? Eu não tinha outra opção, né? Pra poder tá fazendo o que eu... realmente, já tinha tendência. Eu chamo de tendência. É uma coisa que, no caso, eu não… tipo… era homem. Vou virar mulher. Eu já tinha pouquinho de sexo, né. Já tinha a tendência a ser feminina, a voz, as minhas amizades, tanto quanto criança, eu era mais aceita pelas mulheres do que pelos meninos, porque eu já tinha aquele aquele jeito feminino. A gente chama de afeminado, né? O afeminado. Então, bullying, eu passei por tudo isso até chegar onde eu cheguei.
Então, para fazer a minha hormonização… Para eu fazer essa opção de eu estar trabalhando até como profissional, eu tive que sair de casa. E para me sustentar, eu tive que ir pra rua fazer programa. Inclusive, eu comecei muito nova. Naquela época, para a gente ter segurança, a gente podia, sim, anunciar no jornal, mas tinha todo custo. Você tinha que arcar aluguel de uma kitnet, você tinha que comprovar a renda, você tinha que ter avalista, porque era muito difícil. Então, a opção que eu tive foi ir pra rua, entendeu? E aí, eu passei, realmente, por uma situação de vulnerabilidade, porque quando a gente tá no meio da loucura, a gente perde a noção do tempo, do perigo. E quando veio o dia amanhecer, o que eu fiz com o meu dinheiro, entendeu? Eu vou comer o quê?
Eu vou dormir aonde? Mesmo tendo família, aqui eu observo o caráter de não levar o problema pra família, entendeu? Às vezes a gente procura o problema e quer jogar no outro, né? Ai, a culpa é... eu tinha muito isso. A culpa é do presidente, a culpa é de tal pessoa, a culpa é de não sei o quê. Na verdade, foram nossas escolhas, mas o que a gente passou foi pro nosso crescimento físico e espiritual. Na época eu namorava hippie, então a gente tinha aquela barraquinha de acampar, aí a gente ia pro parque da cidade. Quando dava a hora do banho, graças a Deus tinha o chuveiro no parque da cidade. Hoje essa galera tem uma opção do banheiro público aqui no Setor para tomar banho quente. Até pra lavar uma roupa, escovar os dentes, tem que ter lugar pra escovar.
Ninguém vai deixar você ficar entrando em qualquer estabelecimento. Pra você entrar dentro de shopping, todo mundo vai te olhar dos pés à cabeça, entendeu? Por isso que eu não julgo as pessoas em situação de vulnerabilidade, porque eu também tive a oportunidade de passar prova pela situação de vulnerabilidade. Eu sei o que é você passar uma noite em claro, ter que se humilhar, pedir dinheiro para outras pessoas.
A pior coisa que tem é o frio. É você enfrentar o frio. Quando eu tinha companheiro era uma coisa, e quando deixei de ter companheiro, eu me virava nos 30, tinha que me virar nos 30. Então eu sempre fui muito sozinha. Eu sempre fui assim… na minha lei de sobrevivência, tipo, de trocar uma ideia aqui, uma ideia ali, e depois sair, me resguardar. Eu já passei por experiências.
Eu acho que a experiência, ela te ensina, sabe? E a experiência, eu acho que machuca. Então, para eu hoje me ver na rua, é só se realmente eu vacilar. Para sair desse lance, a gente tem que ter uma ajuda muito grande espiritual. Porque não é brincadeira. É uma guerra física com a espiritual. Então é uma luta constante. Por isso que eu não julgo quem tá na rua. Eu não julgo quem tá passando pela dificuldade. Porque cada um está na sua jornada espiritual. Jesus via muito, incomodava muito, porque ele trazia a luz, né.

Eu acho que a experiência, ela te ensina, sabe? E a experiência, eu acho que machuca. Então, para eu hoje me ver na rua, é só se realmente eu vacilar. Para sair desse lance, a gente tem que ter uma ajuda muito grande espiritual. Porque não é brincadeira. É uma guerra física com a espiritual. Então é uma luta constante.
