Bruna
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TRANSCRIÇÃO
Meu nome é Bruna, tenho 30 anos, venho com trajetória de rua, morei mais de 15 anos aqui no Setor Comercial Sul. No dia 24 para o dia 25 do Natal, minha mãe vai presa, aí a gente perde o aluguel lá de Planaltina, porque minha mãe era a base de tudo, né? Porque a casa sem a base, a estrutura não fica em pé.
E aí a gente… foi isso, cada um caça o seu lugar. Meus irmãos, cada um caça o seu lugar. Mas meu refúgio foi aqui, porque eu não tive casa, eu tive assim, eu vou pra onde? Meus 15, 16 anos dentro do Setor Comercial. Então, eu já passei por muita coisa, perseguição da polícia, das pessoas quererem fazer o mal comigo. Pra mim sobreviver dentro do território, eu tive que me impor. Eu tive que ser pior do que homem dentro do território. Então, era aquela pessoa que não abaixava pra ninguém.
De dia, tá todo mundo acordado, a cidade tá acordada, né? Todo dia tá vendo, fica mais difícil a pessoa fazer alguma coisa com tu. Então, muitas vezes a gente trocava a noite pelo dia. Então, de dia eu dormia o dia todo e de noite eu ficava acordada por fato mesmo de sair, a perseguição da polícia mesmo, de fato de ser mulher, ser estrupada, entendeu?
Às vezes chovia, você não tinha uma coberta, a gente guardava nossas cobertas em cima de árvores. Às vezes, até dentro de esgoto, aí chovia, molhava tudo. Aí de noite não vinha nenhum tipo de doação pra gente. A gente tinha que se virar, pegar a faixa pra gente se cobrir. Eu acho que o frio da noite com chuva é o mais dolorido mesmo. E você acordar com fome e não ter dinheiro, não ter o que comer. Isso dói muito numa pessoa mesmo, assim. De acordar e você ir para a porta de restaurante pra você comer o resto, entendeu? Então, isso aí é doloroso demais. Você não tem nem pelo menos o digno, né? Que é o alimento, é a moradia onde você está habitando.
Aí veio o Instituto no Setor, em 2018, na minha vida. Eles vêm dar uma oportunidade pra mim trabalhar ali no banheiro que a gente tem aqui no setor. Porque precisava de uma mulher no banheiro que tinha uma liderança dentro do território. Eu falei, véi, só me dá uma oportunidade que aí você deixa comigo. Porque tem muita coisa boa nessa rua. Tem muita diversidade, sabe? É porque tem gente que não tem um olhar, assim, olhar humano, sabe? Que vê que aquelas pessoas têm capacidade.
Buraco do rato. É tipo dizendo que dentro desse espaço não existe ser humano. Existe gente doente, existe rato. E não é isso. Porque é um lugar onde tem alegria, onde tem pessoas, tem vida.
Atualmente eu cuido da minha mãe, ela tá no oxigênio. Hoje eu aluguei uma casa em Planaltina, então ela tem 65 anos e atualmente eu sou a filha que cuida dela. Mas a rua também é família. A gente fala que a gente pertenceu, que a gente veio do papelão. Entendeu? E fala assim, a gente sai da rua, mas a rua nunca sai da gente. É isso.

Buraco do rato. É tipo dizendo que dentro desse espaço não existe ser humano. Existe gente doente, existe rato. E não é isso. Porque é um lugar onde tem alegria, onde tem pessoas, tem vida.
